“Eu sou uma princesa!” A potência da literatura negro-brasileira para o público infantojuvenil

 

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A exclamação que inicia o título do presente texto, “Eu sou uma princesa!”, foi dita por uma garotinha negra de quatro anos de idade após conhecer as narrativas do livro Omo-Oba: Histórias de princesas, da professora, dançarina e escritora negra Kiusam de Oliveira, com ilustrações de Josias Marinho.

 

Na obra, lançada em 2009 pela Mazza Edições, a autora promove o encantamento infantil, em referência à expressão por ela utilizada, a partir da história de seis princesas meninas: Oiá, Oxum, Iemanjá, Olocum, Ajê Xalugá e Oduduá, as quais se tornaram importantes rainhas para o povo iorubano, assim como para os descendentes de africanos em território brasileiro, e tiveram suas trajetórias contadas e recontadas oralmente ao longo dos tempos.

 

Diante da fala da pequena princesinha, podemos perceber a potência da literatura negro-brasileira, expressão defendida por Cuti (2010) para Eu sou uma princesa! A potência da literatura negro-brasileira para o público infantojuvenil Por Janaína Oliveira Caetano, Suzete Araújo Oliveira Gomes e Helena Carla Castro denominar as produções de autores negros que assim se assumem, manifestando em seus textos suas vivências enquanto indivíduo negro e atuando no combate ao racismo. Assim como sua importância para elevar a autoestima de meninos e meninas negras, contribuindo para a construção de sua identidade étnico-racial.

 

No entanto, o número de obras destinadas ao público infantojuvenil que abordam a temática da cultura africana e/ ou afro-brasileira e possuem escrita negra, ainda é bastante limitado, não contemplando a maioria da população brasileira, a qual se autodeclara preta ou parda (56,2%), segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2019.

 

Eliane Debus (2018), ao realizar uma pesquisa nos catálogos comerciais destinados às crianças e aos jovens de dez editoras (Ática, Companhia das Letrinhas, DCL, FTD, Paulinas, Salamandra, Scipione, Mazza, Paulus e SM), dos anos de 2008 e 2009, constatou que dos 2.417 livros publicados, somente 171 tinham como tema o negro e/ou as culturas africanas e afro-brasileiras.

 

Tal cenário reflete o pensamento colonial que, desde sempre, colocou a Europa e suas produções num patamar superior, subalternizando tudo aquilo que fugia a seus padrões, marginalizando e silenciando os saberes ancestrais dos povos africanos e indígenas. Enfim, promovendo um verdadeiro epistemicídio, segundo Sueli Carneiro (2005).

 

Devido a isso, crescemos ouvindo somente uma única história, aquela contada pelo homem branco europeu e que representa apenas sua visão dos fatos, o que é perigoso, como pontuou Chimamanda Adichie (2013), pois cria estereótipos e destrói a dignidade dos demais povos, impedidos de falar. Nesse sentido, como 18 destacou Munanga (2015), todas as ideologias que pretenderam impor seu domínio sobre um determinado grupo, buscaram falsificar e destruir suas histórias.

 

Muitas histórias importam, como diz Adichie (2013). Certamente, teremos uma narrativa bem diferente se começarmos um texto com as flechas dos indígenas ao invés das caravelas dos portugueses. Precisamos ouvir as vozes dos indígenas e dos africanos, conhecer o seu lado da história, contado a partir de seus conhecimentos, valores, costumes e tradições. Somente assim começaremos a desentortar nosso pensamento, como costuma dizer Daniel Munduruku.

 

E a literatura tem se mostrado um recurso poderoso nesse sentido, sobretudo para os pequenos, que têm, com os livros infantis, suas primeiras experiências de leitura, não só da parte escrita, mas também das ilustrações. Daí a importância de termos obras que contemplem a diversidade da sociedade em que vivemos, com narrativas e imagens positivas. E, mais do que isso, que elas estejam acessíveis a todas as crianças, sobretudo nas escolas.

 

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), a criança é um sujeito histórico e de direitos que constrói sua identidade a partir das relações e experiências que vivencia no dia-a-dia, com seus pares e com os adultos. A criança não nasce racista, ela reproduz e reinventa o que observa e ouve em suas interações.

 

Desse modo, se ela tiver a oportunidade de conhecer histórias de princesas africanas, como aquelas contadas por Kiusam de Oliveira, em Omo Oba, ou por Sinara Rubia, em Alafiá, a Princesa Guerreira; meninos como Nito, de Sônia Rosa, que entendeu que as lágrimas podem rolar em qualquer rosto, inclusive no seu, ou Akin, também de Kiusam, que se descobriu um príncipe com seu black power; viajar nas aventuras de Nana e Nilo, de Renato Noguera, irmãos que aprendem sobre o ubuntu e o teko porã, sua percepção de mundo será muito mais plural, contribuindo para a formação identitária das que forem negras e para a conscientização, conhecimento, respeito e valorização da cultura negra por aquelas não-negras.

 

A literatura nos permite viajar sem sair do lugar, emocionar-se, sonhar, rir e chorar. Ela nos inspira e nos mostra como somos fortes e capazes, como em Olelê: Uma antiga cantiga da África, de Fábio Simões, em que as crianças do povo que vivem à beira do rio Cassai, na atual República Democrática do Congo, precisam atravessá- -lo, sozinhas, durante sua cheia, enfrentando suas correntezas.

 

Nos faz conhecer e reverenciar nossa ancestralidade, como em Betina, de Nilma Lino Gomes, cuja protagonista aprende a arte de trançar os cabelos com sua avó; resgatar a nossa história e a luta daqueles que vieram antes de nós e abriram o caminho, para que hoje, pudéssemos estar aqui, como em Bucala: a princesa do quilombo do Cabula, de Davi Nunes; reconhecer a riqueza e a beleza de nossa pele preta, presente da mãe África, berço da humanidade, como em Princesas Negras, de Edileuza Penha de Souza e Ariane Celestino Meireles.

 

Enfim, são infinitas as possibilidades de conhecimento, encantamento, sabedoria, diálogo, compartilhamento e reflexões. Se durante muito tempo os personagens negros na literatura foram caracterizados de forma negativa e estereotipada, muitas vezes sem direito a um nome, sendo-lhes negada sua humanidade, restritos à cozinha ou às favelas, limitados a papeis secundários, representações que nenhuma criança negra gostaria de estar vinculada, hoje eles nos entusiasmam, nos fazem ter orgulho de nossa pele preta, dos cabelos crespos, de nosso passado.

 

O livro de literatura negro-brasileira se transforma num espelho mágico, no qual meninos e meninas pretas se olham e têm a satisfação de se reconhecerem em personagens fortes, potentes, conscientes de seu pertencimento étnico-racial, de suas raízes, inseridos em famílias onde encontram amor e carinho. Personagens que retratam o protagonismo e a agência que nós, homens e mulheres pretos, sempre tivemos.

 

Assim, esperamos que muitas outras histórias negras continuem sendo escritas para que os meninos e meninas pretos desse reino chamado Brasil descubram sua majestade. Adupé!

 

REFERÊNCIAS

 

ADICHIE, Chimamanda. O perigo de uma história única. Por dentro da África, 2013. Disponível em: . Acesso em: 10 de maio de 2021. CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. (Tese de Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005. CONHEÇA o Brasil – População Cor ou Raça. IBGE Educa. Disponível em: https://educa.ibge.gov. br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html. Acesso em 15 de junho de 2021. CUTI (Luiz Silva). Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010. DEBUS, Eliane. A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens. São Paulo: Cortez: Centro de Ciências da Educação, 2018. GOMES, Nilma Lino. Betina. Ilustrado por Denise Nascimento. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009. MUNANGA, Kabengele. Por que ensinar a história da África e do negro no Brasil de hoje? Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 62, p. 20–31, dez. 2015. NOGUERA, Renato. Nana & Nilo na cidade verde. Ilustrado por Sandro Lopes. Rio de Janeiro: Chave, 2018. NUNES, Davi. Bucala: a princesa do quilombo do Cabula. Ilustrado por Daniel Santana. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2015. OLIVEIRA, Kiusam de. Omo-oba: histórias de princesas. Ilustrado por Josias Marinho. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009. __________________. O black power de Akin. Ilustrado por Rodrigo Andrade. São Paulo: Editora Cultura, 2020. ROSA, Sônia. O menino Nito. Ilustrado por Victor Tavares. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. RÚBIA, Sinara. Alafiá, a Princesa Guerreira. Ilustrado por Valéria Felipe. Rio de Janeiro: Nia Produções Literárias, 2019. SIMÕES, Fábio. Olelê: Uma antiga cantiga da África. Ilustrado por Marilia Pirillo. Coordenado por Heloisa Pires Lima. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2015. SOUZA, Edileuza Penha de; MEIRELES, Ariane Celestino. Princesas Negras. Ilustrado por Juba Rodrigues. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2019.