Vozes erguidas na literatura de Cristiane Sobral

 

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Cristiane Sobral é carioca e vive em Brasília. Mãe, multiartista, escritora, atriz e professora de teatro da SEEDF. Bacharel, licenciada em teatro e Mestre em Artes pela UnB. Tem dez livros publicados em diversos gêneros. Em 2019, palestrou sobre literatura em nove universidades nos EUA e foi jurada do Prêmio Jabuti de literatura, categoria contos, em 2020. Também em 2020, pelo Clubelê lançou a edição exclusiva para assinantes Amar antes que amanheça, que chega agora em sua edição comercial pela editora Malê. Confira a entrevista:

 

Revista Mahin. Depois de alguns anos sem lançar um livro de contos inéditos, você lança esse ano, pela Editora Malê, o livro “Amar antes que amanheça.” O que o leitor pode esperar desta coletânea?

 

Cristiane Sobral. Na obra enveredei por outros caminhos no gênero conto, outras estruturas e temas ainda não experimentados, assim como adensei apostas sensoriais já feitas no campo da palavra e do contato com o leitor. O título do livro é um tecido estendido ao longo das narrativas, como dobraduras, rusgas e bordados em torno desse tema, o amor, e da urgência temporal: antes que amanheça. Falar de afeto do ponto de vista da experiência negra nos relacionamentos é um grande desafio.

 

Revista Mahin. O seu último livro de poemas, “Rainha dos raios”, foi publicado pela Editora Patuá e, recentemente, você fundou a editora Aldeia de palavras. Como você vem avaliando o mercado editorial para a autoria negra?

 

Cristiane Sobral. O mercado editorial ainda não contempla a diversidade dos autores e temáticas da estética negra, aqui e ali, algumas portas se abrem e confirmam os critérios de exceção na literatura brasileira. Hoje, vendemos bem menos, em uma comparação com Carolina Maria de Jesus, só para citar um exemplo. A visibilidade tem aumentado e precisamos discutir a formação de autores, a profissionalização, a cadeia do livro, os distribuidores, o marketing e as vendas, tudo isso considerando a presença de pessoas negras nessas áreas.

 

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Revista Mahin. Seus primeiros poemas foram publicados nos Cadernos negros, qual a importância da série na sua carreira?

 

Cristiane Sobral. Cadernos Negros foi o início da caminhada, um espaço importante de formação política e estética na construção da minha trajetória. Ali, conheci e li muitos autores negros, estudei as suas estratégias de composição considerando a experiência negra, algo que não encontrei na academia por exemplo. A cada publicação nos Cadernos, fui escurecendo meus textos, pesquisando a subjetividade, a multidimensionalidade dos personagens, elementos essenciais na construção da minha identidade literária.

 

Revista Mahin. Um diferencial na sua literatura é que ela é, muitas vezes, um híbrido com o texto teatral, gostaria que você comentasse um pouco sobre como você vai construindo as cenas nos seus contos.

 

Cristiane Sobral. Os conceitos de tempo, espaço e lugar eu trago para a literatura a partir do teatro. A epifania, o contexto das peripécias, o conflito e o seu adensamento até o clímax também. Ser uma mulher de teatro me ensinou a ousar e desobedecer a estruturas narrativas padronizadas, as cristalizações globais e hollywoodianas do nosso imaginário. No mundo das artes cênicas percebi, como atriz e dramaturga, a necessidade de construir imaginários, abandonar crenças limitantes e julgamentos morais que, muitas vezes, estreitam a capacidade de sonhar, mesmo que seja na ficção. Ainda não estamos livres para criar fora das caixas maniqueístas de certo e errado, o campo mental das pessoas negras e não negras no Brasil ainda precisa ser muito explorado, isso me fascina.

 

Revista Mahin. Em 2017, você lançou a coletânea de contos “Terra negra”, que me parece um projeto muito bem desenhado de uma visão contemporânea sobre a população negra. Caminhamos para algum dia termos a superação do racismo? Como o racismo aparece na sua poesia?

 

Cristiane Sobral. Terra Negra é um dos meus livros preferidos, mais maduro e ousado, mergulhei fundo no campo temático da negritude e das relações raciais brasileiras. O trabalho com o editor Vagner Amaro foi ímpar, poucos editores no país exercem esse lugar de mentoria crítica na produção das obras.

 

Revista Mahin. Certa vez, você comentou comigo que estava trabalhando numa literatura de anunciação, eu achei isso lindo, principalmente no sentido de inscrever no imaginário social brasileiro outras possibilidades de existência e afetos (interpretação minha). Poderia comentar um pouco sobre o seu projeto literário?

 

Cristiane Sobral. Anunciar é ir além da resistência, é ocupar territórios. Esperança Garcia, Maria Firmina dos Reis, Lima Barreto, Conceição Evaristo, Geni Guimarães, esses nomes e outros tantos, contribuem para o meu projeto literário. Quando escrevemos, a realidade passa a ser inventada. Sou uma mulher negra a escrever e anunciar narrativas, quero viver profissionalmente do meu ofício. Cruzar continentes, encontrar mais leitores, os elos dessa corrente guiada pelas imagens e sensações. Amo meu trabalho!

 

Revista Mahin. Como é fazer literatura no Brasil de 2021? Questões como a pandemia do covid-19 e o desastre que é o governo Bolsonaro afetam o seu fazer literário. O que mais contamina a sua escrita?

 

Cristiane Sobral. Os fracassos também são inspiradores. Sou a favor, em certa medida, da contaminação e do caos para gerar a cura ou movimentar os campos. No desespero também criamos, escurecidamente, prefiro criar no prazer, mas é algo que ainda está em perspectiva. A pandemia fechou portas, me levou para um recolhimento, além do isolamento sempre vivido por uma pessoa negra nesse país, tenho encontrado muito material aí e no aquilombamento com os meus irmãos.

 

Revista Mahin. No livro “Amar antes que amanheça”, me parece que as questões das religiões de matriz africana aparecem com mais intensidade e diversidade. Assim como a presença de uma narradora que conduz mais o leitor (não neutra). Como você tem percebido as mudanças no seu estilo de fazer literatura?

 

Cristiane Sobral. Estou cada vez mais construindo a minha identidade literária, é isso mesmo que quero fazer e vou fazer o que mais tiver vontade. A literatura é uma das maiores formas de nudez que eu já experimentei na vida, é epifania, é atravessamento. Estou cada vez mais nua para o leitor, ele que entre no campo ficcional e faça as suas escolhas de interpretação.

 

Revista Mahin. A Revista Mahin é lida por muitas escritoras que sonham em seguir uma carreira literária e você é uma referência para elas. Poderia deixar um conselho para quem sonha em se tornar escritor?

 

Cristiane Sobral. Exerçam o ofício com amor e coragem. É necessário ler, escrever, ler novamente, pesquisar, melhorar sempre a autoestima e o autocuidado. O tempo é relativo para cada um de nós. Acreditem e continuem no jogo. Cada um tem o seu espaço e destino, assim como o livre-arbítrio. Sejam responsáveis pelos fracassos e êxitos na carreira e continuem escrevendo.

 

Revista Mahin. Como a literatura (prosa e poesia) podem contribuir para as questões do feminismo negro?

 

Cristiane Sobral. O reconhecimento de mulheres negras por meio do contato com as trajetórias de outras mulheres negras e suas histórias pode ser um espelho de riqueza e mudança no contexto do feminismo negro. Personagens negras podem anunciar às mulheres negras saídas, opções, contribuir para o refazer das identidades múltiplas. São bálsamos na nossa luta diária.

 

Revista Mahin. Nestes mais de vinte anos de carreira, poderia citar três momentos que você julga mais especiais?

 

Cristiane Sobral. A primeira temporada em Angola com a Cia de arte negra Cabeça Feita, que dirigi 17 anos com o espetáculo Petardo, “será que você aguenta”, escrito em parceria com Dojival Vieira; O lançamento do meu primeiro livro, “Não vou mais lavar os pratos”, poesia, em 2010; O lançamento do livro “Amar antes que amanheça”, contos, pela Ed. Malê, obra produzida durante a pandemia da Covid-19.